O Exercício da Autoridade na Universidade

Discurso de Posse de Novos Diretores em 21/02/2008
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência” (Romanos 13.1-6).
Senhores e Senhoras aqui presentes.
A estrutura da universidade sempre se apoiou em dois princípios: mérito e hierarquia. A hierarquia tem a ver com o exercício da autoridade acadêmica e administrativa em diferentes níveis. Dentro da estrutura hierárquica da Universidade, os diretores das unidades, que ali chegaram certamente pelo mérito, exercem autoridade no comando e direcionamento das suas respectivas escolas.
Exercer autoridade não é coisa fácil. Existe sempre o perigo de se cair em um dos dois extremos clássicos: o autoritarismo ou o encolhimento e omissão. Assim reconheceu Lenin, líder russo revolucionário, quando disse: “A autoridade envenena todos os que dela se revestem.”
Todavia, é possível exercer a autoridade se o fizermos da maneira correta, conforme os princípios bíblicos que encontramos aqui nas palavras do apóstolo Paulo lidas acima. Nessa passagem da carta que ele escreveu aos cristãos de Roma encontramos a perspectiva cristã clássica da autoridade e como ela deve ser exercida. Na época, o mundo estava debaixo do Império Romano e o imperador era Nero.
O objetivo de Paulo era despertar nos cristãos a consciência de que toda a autoridade provinha de Deus e que os poderosos, governantes e potestades desse mundo tinham poderes delegados.
Aqui encontramos alguns princípios cristãos relacionados com o exercício da autoridade, dos quais passo a mencionar os seguintes.
1. TODA AUTORIDADE VEM DE DEUS
Deus é o Criador, Sustentador e Redentor do Universo. Ele tem toda autoridade e poder em si mesmo. Ele rege a história e intervém no mundo. Deus é o único em quem o poder e autoridade são intrínsecos, fazendo parte de seus atributos e de sua natureza.
2. AS AUTORIDADES QUE EXISTEM FORAM POR ELE CONSTITUÍDAS
Ele organizou seu mundo sob o princípio da autoridade. Embora muitos não gostem desse princípio, o mesmo certamente é melhor do que a anarquia, que é a ausência de qualquer exercício de autoridade legítima. Assim reconheceu Oscar Wilde, renomado escritor anglo-irlandês, em sua poesia:
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É melhor o governo de Deus, ao qual todos obedecem
Do que deixar que demagogos clamorosos traiam
Nossa liberdade com o beijo da anarquia.
Deus organizou as sociedades humanas sob o princípio do exercício da autoridades: os governos, a família, a Igreja e mesmo as instituições em geral. Não funcionamos bem sem que haja o exercício correto da autoridade.
Devemos lembrar, porém, que toda autoridade humana é delegada e não intrínseca à pessoa que a exerce. Por isto o apóstolo Paulo diz “toda autoridade provém de Deus.” Nas palavras de Eric Fromm: “Autoridade não é uma coisa que alguém tem, como uma qualidade física; autoridade se refere a uma relação interpessoal”.
Dizer que toda autoridade provém de Deus não é responsabilizá-lo pelos abusos cometidos pelos déspotas e autoritários. É claro que os abusos são nossa responsabilidade. Todavia, a autoridade como princípio, provém de Deus.
3. DEUS CONSTITUIU AUTORIDADES EM TODOS OS NÍVEIS DA SOCIEDADE COM DOIS OBJETIVOS PRINCIPAIS EM MENTE:
Esses objetivos são, em primeiro lugar, promover o bem e encorajar os bons. É isso que Paulo diz no texto que acabamos de ler. No nosso caso, como Universidade, a autoridade deve ser exercida para a promoção do saber, da pesquisa e do conhecimento, reconhecendo e encorajando os que cooperam para esse fim, os bons professores, funcionários e principalmente os bons alunos.
Em segundo lugar, a autoridade deve ser exercida para limitar e conter o mal e refrear os que são maus e impedi-los. Isso também é dito pelo apóstolo no texto acima. No âmbito universitário, isso significa usar a autoridade para impedir que o nosso alvo, que é a educação integral, seja prejudicado por pessoas que visam apenas os benefícios próprios e não têm vocação para ocupar as funções que ocupam numa universidade confessional, comunitária e filantrópica.
Diante dos pontos acima, Senhores Diretores, os que nesse mundo exercem autoridade devem fazê-lo conscientes, em primeiro lugar, que é um sacerdócio. Paulo chama as autoridades de “ministros de Deus”.
Aqui nos deparamos com a doutrina reformada de que não há distinção entre o sagrado e o profano. Tudo que fazemos nesse mundo é sagrado. Pois o fazemos coram Deo, na presença de Deus. Vejam o exercício da sua função como um sacerdócio, um ministério sagrado, e o exerçam sempre na presença de Deus.
Em segundo lugar, lembrem-se que darão contas a Deus da maneira como exerceram essa autoridade. Se nossa autoridade é delegada, somos meros mordomos que haveremos de dar contas de nossa mordomia.
Por último, lembrem-se que necessitarão constantemente de Deus para exercer a autoridade de maneira sábia, prudente e eficaz.
Portanto, busquem no livro de Deus, a Bíblia Sagrada, a sabedoria diária necessária para tomar as decisões acertadas. Que nosso Deus os abençoe no cumprimento dessa missão.
Augustus Nicodemus Lopes
Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie
